Entrevista
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Início dos anos 2000. Globalização era a palavra da moda e pipocavam empresas que usavam a Internet como base de negócios. As universidades começavam a perceber que o famoso tripé ensino/pesquisa/extensão deveria ganhar outra perna: empreendedorismo. Foi nesse contexto que, em 2001, surgiu o Núcleo de Empreendimentos em Ciência, Tecnologia e Artes (NECTAR), iniciativa liderada por renomados professores da UFPE com a missão de contribuir para o desenvolvimento socioeconômico da região através da promoção e gestão de empreendimentos inovadores nessas três áreas.
Edson Costa de Barros Carvalho Filho, professor do Centro de Informática da UFPE, ocupava a então recém criada Diretoria de Inovação e Empreendedorismo (Dine) daquela universidade. A missão da Dine era gerar conhecimento sobre empreendedorismo, apropriar conhecimento institucional (registro de patentes próprias da UFPE), identificar unidades empreendedoras dentro da universidade e criar um ambiente que servisse de guarda-chuva para os empreendimentos inovadores. Com o apoio de professores de todos os centros da UFPE, que se tornaram sócios fundadores, foi constituída a organização sem fins lucrativos Nectar. Pouco tempo depois, em abril de 2002, o Nectar foi reconhecido pelo Ministério da Justiça, como Organização Social Civil de Interesse Público (Oscip), o que permite fechar parcerias diretamente com o setor público.
A primeira sede do Nectar funcionou no Campus da UFPE, mais exatamente no antigo Restaurante Universitário, que foi totalmente reformado através de convênios e parcerias com instituições como Sebrae, Facepe e Finep, disponibilizando 1.200 m² de um antigo prédio abandonado para a incubação de empresas e desenvolvimento de pesquisas. Em 2004 foi a vez de buscar imóvel próprio e uma unidade, próxima à reitoria da UFPE, foi adquirida na Rua Costa Sepúlveda, número 749. No local há espaço para cursos, sala de reunião, incubação de empresas, prestação de serviços e gerenciamento administrativo.
Linhas de atuação Para conseguir aumentar essa entrada de recursos de forma constante – apesar dos altos e baixos da economia – o Nectar atua em sete linhas: incubação de empresas; desenvolvimento de projetos; capacitação; consultoria; assistência técnica; realização de eventos e pesquisa e desenvolvimento. “Nós respondemos rapidamente à demanda de mercado. Se existe maior necessidade em determinada área nós atuamos com mais força”, explica o presidente do Nectar. Esse crescimento orgânico acelerado só é possível com os diferenciais do Nectar, como a proximidade com o conhecimento gerado em uma das maiores universidades do País, a UFPE, além de parcerias com outras faculdades na região. Ainda se destaca no Nectar a agilidade institucional, o foco em resultados e o atendimento integral à legislação brasileira. A interface com o mundo externo é técnica, não política; o foco é em pesquisa, desenvolvimento, prestação de serviços e reconhecimento pelo mérito.
Essa estrutura dinâmica e qualificada permitiu ao Nectar se destacar em concorrências públicas e captação de recursos. Um dos maiores parceiros da instituição é o Sebrae, que apoiou o Nectar desde a formatação do programa de incubação de empresas à cooperação e assistência técnica para cadeias produtivas de Pernambuco. Também se destacam entre os parceiros de convênios do Nectar: Petrobras, Correios, Chesf, Finep, CNPq, Iphan, Companhia Industrial de Vidros (CIV), entre outros. Em média, 60% dos projetos são desenvolvidos com parceiros públicos e 40% com privados. Também dentro das parcerias, no prédio do Nectar funciona um posto avançado de atendimento do Sebrae, o projeto Atender +. Com isso o Sebrae descentraliza suas atividades e conta com a agilidade do Nectar na prestação do serviço de consultoria empresarial. Neste projeto está incluída a prestação de serviços fora de escritório, através do Atender + Comunidade. Os consultores que trabalham no projeto, liderado pelo economista Francisco Lopes, se instalam diretamente em bairros populares como Ibura, Casa Amarela ou Engenho do Meio e prestam serviços que, muito possivelmente, esses pequenos empreendedores não teriam acesso, como aulas sobre gerenciamento de fluxo financeiro, marketing e formatação de produtos. Mais recentemente, o Sebrae escolheu o Nectar para desenvolver um novo projeto: o Agente Local de Inovação (ALI). Neste trabalho, estão sendo recrutados 20 consultores para atuarem em 1000 micro e pequenas empresas. A tarefa do agente de inovação é fazer um diagnóstico da atividade empresarial que está sendo desenvolvida e propor melhorias e inovações, aumentando a competitividade sistêmica dos negócios visitados.
Incubação Para selecionar os empreendimentos que serão incubados, o Nectar promove um edital de ciclo contínuo, em que o empreendedor apresenta um plano de negócio e realiza um estudo de viabilidade técnico-econômico. Depois, caso constatada a viabilidade e adequação, o empreendimento é incubado, passa por uma metodologia de desenvolvimento e recebe consultorias, atuando na concepção, estruturação, desenvolvimento e graduação de empreendimentos. Atualmente, o Nectar possui 21 empresas incubadas, das quais seis são fixas e 15 virtuais, ou seja, desfrutam da estrutura de gestão, metodologia e conhecimento empresarial do Núcleo, mas não precisam estar fisicamente no mesmo prédio. Ambiente para Gestão da Informação e Logística formam a sigla da AGIL, sinônimo de um serviço para assessorias e agências de comunicação disponibilizado pela AGILWARE, uma das empresas que o Nectar aposta no sucesso. Com seis pessoas na equipe, a AGILWARE desenvolve um software para gerenciamento de comunicação servindo de plataforma para assessorias de imprensa, o Agil Comunica. A ferramenta gerencia mailings e gera indicadores e relatórios de desempenho de campanhas informativas. Já são dois anos de desenvolvimento e o apoio do Nectar foi crucial, como revela o sócio da AGILWARE, Jordano Bruno. “O Nectar deu todo o suporte necessário para formatar o negócio, partindo da ideia para a prática de uma forma estruturada, com suporte tanto contábil quanto jurídico”, afirma o jovem empresário. Outro benefício, enfatiza, foi a capacitação proporcionada para a equipe. “Através do Nectar a nossa equipe fez cursos de vendas, gestão empresarial e tivemos mais capacitação para empreender”, diz. Para Jordano Bruno, outro fator muito importante para quem começa é dispor de uma infraestrutura física, como sala para reuniões e desenvolvimento.
Cultura e Comunicação No Brasil, o conceito de incubação esteve quase sempre vinculado a atividades de base tecnológica. O Nectar, desde a concepção, ampliou esse escopo para incluir a cultura e comunicação, dois vetores importantes da moderna economia da informação. Nessa linha, o Nectar também desenvolve e atua em projetos culturais. É o caso do Espaço da Cultura Popular, mantido pela instituição no tradicional Mercado de São José, com peças e escritos da cultura pernambucana num dos locais de maior movimento da cidade. Um dos projetos mantidos pela instituição contempla a digitalização, recuperação e tratamento de documentos que constam do acervo de memória popular do pesquisador Liêdo Maranhão, com a finalidade de disponibilização pública do material. Outra iniciativa integrante do Nectar é um programa de rádio sobre literatura, o “Café Colombo – o seu programa de livros e ideias”, que é veiculado na Rádio Universitária FM (99,9 Mhz) e também na internet (www.cafecolombo.com.br), que já conta com mais de 350 entrevistas com grandes nomes da cultura e até mesmo um livro lançado com uma seleção desse material. O Nectar também já participou de programas de incentivo fiscal, como o Funcultura do Estado de Pernambuco com projetos sobre a pesquisa sobre o período holandês no Brasil e digitalização de documentos do projeto “Monummenta Hyginia”. Também já desenvolveu projeto de digitalização do acervo Museu Murillo Lágreca, documentos Pinturas e Desenhos, em parceria com a Fundação de Cultura Cidade do Recife.
Outra faceta que vem sendo desenvolvida pelo Nectar é a realização de eventos. Isso inclui atividades acadêmicas, como congressos e feiras científicas, bem como encontros empresariais. Um exemplo foi o Festival do Jeans de Toritama (2008), cidade do Agreste pernambucano famosa pelo seu Arranjo Produtivo Local (APL) de confecções. Na mesma cidade foi realizado o Festival de Cultura e Moda (2007), também sob coordenação do Nectar.
O Nectar tem uma visão de futuro bifocal, que tanto olha as potencialidades locais quanto prospecta negócios e parcerias no restante do país para ganhar escala. “Queremos ganhar escala, mas também atuar, mais diretamente, no interior do Estado, fortalecendo as potencialidades econômicas de Pernambuco”, afirma Edson Costa de Barros Carvalho Filho. Pernambuco tem mapeado Arranjos Produtivos Locais (APLs) como o gesso, no Araripe, a fruticultura irrigada e produção vinícola no Sertão do São Francisco, o pólo de confecções no Agreste e, despontando cada vez mais pela atração de empreendimentos estruturadores para o Complexo Industrial e Portuário de Suape, um novo pólo metal-mecânico. Este último surge para dar suporte à instalação e assistência técnica às indústrias que se instalam em Suape, a exemplo da Refinaria Abreu e Lima, o Estaleiro Atlântico Sul, a Petroquímica Suape entre outras. O Nectar já tem estruturando, ao lado da sua sede na Cidade Universitária, o Centro Vocacional Tecnológico (CVT) do Metal-mecânico. Fruto de um investimento de 2 milhões de reais de recursos orçamentários, o CVT fornece capacitação profissional em seis módulos para cerca de 300 alunos por vez. Também crescendo fisicamente, o Nectar chegou a 800 m² de área construída distribuída em três imóveis, incluindo o novo CVT.
Ainda na linha de capacitação, o Nectar foi a instituição escolhida para participar do Programa ProJovem Trabalhador no município de Palmas (TO), numa parceria com o Ministério do Trabalho e Emprego e a Prefeitura de Palmas. O Nectar atua na capacitação de mil jovens, de 18 a 29 anos, no programa que visa prepará-los para o mercado de trabalho. Nos mesmos moldes, o Nectar inicia em 2010 os trabalhos do Programa Viva Digital, em parceria com o Governo do Estado do Maranhão e a Univima (Universidade Virtual do Estado do Maranhão). Os principais objetivos do programa são sensibilizar e capacitar 40 mil habitantes em Informática básica e criar uma incubadora de empresa em Tecnologias da Informação, gerando oportunidades de negócios. |









