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Ter o seu próprio negócio é o sonho de milhões de brasileiros, mas se lançar ao mercado sem buscar a orientação necessária abrevia a trajetória de muitas empresas ainda em seus primeiros anos de vida. O professor Marcos Oliveira, nosso entrevistado do mês, presta esse tipo de auxílio, atuando como assessor técnico do Projeto de Descentralização de Atendimento SEBRAE e do Negócio a Negócio, iniciativas desenvolvidas pelo NECTAR em parceria com o SEBRAE.
Portal Nectar – Quem é o professor Marcos Oliveira?
Professor Marcos Oliveira – Eu sou formado em Administração pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e estudante do mestrado no PROPAD (Programa de Pós-Graduação em Administração). Sou orientado pelo Professor Dr. Fernando Paiva e faço parte do GITEC (Grupo de Estudos e Pesquisas em Inovação, Tecnologia e Consumo), grupo liderado pelo Prof. Sérgio Benício, PhD., onde colaboro desde 2003 com pesquisas e publicações nas áreas de empreendedorismo, inovação, tecnologia e cultura. De 2000 a 2003, já trabalhava com microcrédito para empreendedores informais no CEAPE-PE (Centro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Pernambuco) e desde então venho construindo minha carreira nessa temática, trabalhando não só com negócios, mas também com as pessoas que estão por trás deles. Atualmente também sou professor substituto do Departamento de Ciências Administrativas da UFPE, onde leciono as disciplinas de Novos Negócios, Marketing e Administração.
Portal Nectar – Como começou a sua relação com o NECTAR?
Professor Marcos Oliveira – Recém-formado, como já tinha experiência em lidar com empresas nascentes, fui convidado em 2007 para trabalhar com o NECTAR. Já aqui dentro surgiu a oportunidade de atuar em um projeto em parceria com o SEBRAE (Serviço de Apoio ao Empreendedor e Pequeno Empresário), o Atender Mais. Esse projeto surgiu da necessidade do SEBRAE em expandir sua capacidade de atendimento aos clientes que buscavam orientação individualmente. O SEBRAE orienta boa parte de seus esforços para prestar auxílio a empreendimentos já estruturados, organizados coletivamente nos chamados APL (Arranjos Produtivos Locais). Assim, existia uma demanda reprimida por parte daqueles empreendedores, que chegavam por conta própriacom dúvidas sobre como abrir uma empresa ou melhorar a gestão de seu negócio.
Por isso, o SEBRAE Nacional lançou um edital convocando as incubadoras e algumas delas foram selecionadas para prestar esse serviço, descentralizando o atendimento. Na ocasião, atuei no projeto como analista, ministrando cursos e palestras e orientando empreendedores. Foi um trabalho de cerca de um ano, até que eu entrei no mestrado e me afastei por algum tempo. Depois voltei para coordenar esse projeto, numa nova edição, passando a se chamar Projeto de Descentralização de Atendimento SEBRAE.
Portal Nectar – Em que consiste o Projeto de Descentralização de Atendimento?
Professor Marcos Oliveira – Ele se desdobra em três linhas de ação. A primeira é o atendimento de consultoria de viabilidade de plano de negócios. É na verdade o último módulo de um programa do SEBRAE, chamado PRÓPRIO, onde os candidatos a empreendedores participam de encontros em grupo sob a orientação de um consultor para ajudá-los a elaborar seus planos de negócio. No último módulo que é realizado individualmente os empreendedores trazem o seu plano de negócio para que nossos analistas façam uma análise da viabilidade técnica, financeira e mercadológica. Verificamos quais os pontos críticos, o que precisa ser melhorado e orientamos esses empreendedores a darem esse importante passo com segurança.
Outra linha de atuação é o atendimento continuado a empresas de zero a dois anos. Só em casos muito especiais o SEBRAE faz uma consultoria do tipo intervenção, indo até a empresa e traçando um diagnóstico e um plano de ação. Normalmente, na necessidade de uma consultoria mais profunda, o SEBRAE indica alguém de sua rede de consultores credenciados. Mas, dentro desse convênio que estabelecemos, podemos ajudar a essas empresas nascentes, que se encontram em um período crítico. Segundo estatísticas do próprio SEBRAE, mais de 50% das empresas fecham antes de completar o segundo ano de vida. É um momento em que ela ainda está se consolidando no mercado, a curva de aprendizagem ainda está incompleta e os custos são mais elevados. Fazemos então essa intervenção. Não dá para resolver todos os problemas dessas empresas, que não são poucos, então o nosso objetivo é identificar gargalos e estabelecer planos de ação, acompanhando por 20 horas estruturadas em cinco encontros. O nosso objetivo maior é dar condições a esses empresários e empresárias de observarem seus negócios de um ponto de vista estratégico de modo que eles possam conduzir seus negócios de forma autônoma, identificando suas próprias soluções. Para ser atendido por nós é preciso que esse empreendedor, participe do programa Primeiros Passos do SEBRAE, que oferece um bom nivelamento sobre aspectos importantes da gestão do negócio.
A outra linha de atuação é o Negócio Certo, um novo programa nacional de auto-atendimento que funciona remotamente e o participante pode acessar em três modalidades: via Internet, por CD-ROM ou material impresso, esses dois últimos enviados pelos correios para o endereço do participante. Nesse programa, é disponibilizada uma série de conteúdos para pessoas em diversos graus de maturidade de sua idéia de negócio-, isto é,desde o candidato a abrir um negócio, até um empresário mais maduro que precisa buscar um material sobre coisas mais específicas como estratégias de venda ou marketing. Temos um canal dentro do site chamado Tira Dúvidas, onde respondendo as perguntas dos usuários que acessam o serviço na, modalidade internet, dando uma orientação a distância. Nesse mês de julho, só em Pernambuco, se cadastraram cerca de 300 novos usuários. Um serviço como esse é importante porque não teríamos condições de atender presencialmente a todo esse público. Respondemos em média de 30 a 50 perguntas por mês e a tendência é que esse número cresça. A intenção é que esse empreendedor não utilize esse canal apenas esporadicamente e se sinta à vontade para continuar tirando suas dúvidas sobre empreendedorismo e gestão.. Dentro dessas três linhas de ação, esperamos realizar 2.000 atendimentos até o fim do ano.
Portal Nectar – Quais são as maiores dificuldades enfrentadas pelas pessoas que estão começando novos empreendimentos?
Professor Marcos Oliveira – Falta de informação. Tanto sobre o mercado quanto sobre gestão e os procedimentos para abrir uma empresa. Hoje há uma nova forma jurídica de constituição de um empreendimento chamada de Empreendedor Individual, que abrange àqueles empreendedores que tenham até um funcionário e faturem até 3 mil reais mensais. Para se formalizar o procedimento é muito simples, e pouco oneroso com uma taxa fixa que gira em torno dos R$60,00 por mês. Além de não onerar tanto, dá garantias sociais, pois o empreendedor além de ter seu CNPJ, passa a ter com todos os benefícios em termos de previdência como aposentaria e auxílio-doença. Mas as pessoas ainda não conhecem muito essa nova modalidade, embora o SEBRAE esteja trabalhando muito na divulgação e cadastro desses empreendedores informais.
Quanto ao desconhecimento do mercado, segundo dados da pesquisa anual do GEM (Global Entrepeneurship Monitor), o Brasil tem uma elevada taxa de empreendedorismo, sendo que boa parte dessas pessoas empreende por necessidade, como uma questão de subsistência. Sem emprego ou precisando de uma renda extra, as pessoas montam um negócio, normalmente informalpara dalí tirar seu sustento. Em uma situação bem diferente, temos também os empreendedores de oportunidade, que são aqueles que identificaram uma oportunidade de negócio e têm acesso a capital para investir. Tanto o primeiro quanto o segundo grupo de novos empreendedores devem buscar informações antes de abrir um negócio. Assim as chances de obter êxito são aumentadas.
Muitas vezes as pessoas começam novos empreendimentos por estarem em dificuldades financeiras. Abrem empresas sem nenhum planejamento, sem plano de negócios ou ou mesmo uma análise simples do mercado. Essas pessoas chegam a se desfazer de bens pessoais para investir. Por falta de planejamento e também de conhecimento em gestão, acabam gerenciando mal seus recursos, entram em uma situação de débito e se vêem num beco sem saída. Só aí alguns procuram a orientação do SEBRAE.
Portal Nectar – Há um crescimento no número de pessoas que procuram o Sebrae antes de se arriscar em uma aventura como essa?
Professor Marcos Oliveira – Sim. Embora acredite que ainda seja um número bastante pequeno diante da quantidade de pessoas que empreendem. Percebo que muitas pessoas começam a procurar o SEBRAE por influência de amigos e vizinhos que já receberam orientação e comentam dos cursos que fizeram presencialmente ou pela Internet, das palestras que participaram. Hoje nos encontramos em uma situação de estabilidade econômica que permite que as pessoas possam se planejar melhor a longo prazo. Portal Nectar – O que o senhor pode nos dizer sobre o Negócio a Negócio, novo projeto realizado pelo NECTAR em parceria com o Sebrae?
Professor Marcos Oliveira – O Negócio a Negócio também é um projeto de âmbito nacional, que se inclui no que o Sebrae chama de metas mobilizadoras. Os Sebraes estaduais estabeleceram uma série de metas a serem atendidas. O de Pernambuco tem como meta levar atendimento a 70 mil empresas no ano de 2010. O projeto está em andamento desde julho e conta com uma equipe de dez Agentes de Orientação Empresarial, que percorrerão determinado território, empresa a empresa, como se fosse um Censo. Estão previstas três visitas a cada empreendimento. A primeira é de diagnóstico, para identificar e levantar necessidades de treinamento. Os resultados são enviados para o Sebrae, que decide como ajudar essas empresas, organizando palestras, cursos e oficinas naquelas áreas que forem consideradas mais críticas.
Fazemos então uma segunda visita ao empresário para comunicar o resultado dessa avaliação e apresentar as soluções que serão oferecidas pelo Sebrae. Em um terceiro momento, após o Sebrae ter realizado a ação, fazemos a última visita, que é de avaliação de impacto. A ideia é avaliar como o empresário viu a solução do Sebrae, se ela trouxe benefícios a sua empresa.
Portal Nectar – Qual o público-alvo desse projeto e em que territórios o NECTAR está atuando?
Professor Marcos Oliveira – O projeto é voltado para empresas formais com até quatro funcionários. Um público bem restrito que compõe um segmento que ainda não tem sido atendido pelo SEBRAE em sua plenitude..É um público tipo da economia de bairro e dos morros. São empresas pequenas como mercadinhos, padarias, salões de beleza, bares, lanhouses, pequenas lojas de confecções, dentre outros. Estamos atuando em dois territórios: Recife Centro, nos bairros de São José e Santo Antônio; e uma área que estamos chamando de Recife Norte, que abrange vários bairros como Arruda, Água Fria, Bomba do Hemetério, Alto José do Pinho, Linha do Tiro, Beberibe, Fundão, Cajueiro, Alto Santa Terezinha e Alto José Bonifácio. Além do NECTAR, outras sete organizações também participam, em territórios do Recife, Olinda, Camaragibe, Cabo de Santo Agostinho e também pelo interior do Estado. A meta é atingir as 70 mil empresas atendidas até o fim do ano. É um grande desafio que compartilhamos com o SEBRAE-PE.
O critério encontrado para dividir os territórios entre as empresas foi que cada instituição atuasse em áreas nas quais já desenvolvessem algum tipo de trabalho. Como o NECTAR já tinha uma ação no Alto José do Pinho e realiza exposições no Mercado de São José, ficou responsável por esses territórios. A meta do NECTAR é atender a 4 mil empresas até o final do ano. Há a possibilidade de atender a outros territórios, dependendo do retorno nos que já estão sendo atendidos.
Portal Nectar – Como se dá a relação com esses pequenos empreendimentos e as comunidades nas quais eles atuam?
Professor Marcos Oliveira - O trabalho começou com o mapeamento para o reconhecimento desses territórios. Tenho como premissa estabelecer um alinhamento com as lideranças locais antes de iniciar qualquer trabalho, pois nossos projetos podem vir a somar com iniciativas que já estejam sendo desenvolvidas nessas comunidades, mesmo que não se firme uma parceria formal quanto a isso. Por exemplo, na Bomba do Hemetério, buscamos um entendimento com lideranças locais que compõem um projeto chamado Bombando Cidadania, financiado pelo Instituto Walmart e assessorado pelo Instituto de Assessoria ao Desenvolvimento Humano (IADh). Estive lá conversando com essas lideranças e observamos possibilidades de integrar nossas ações a algumas que eles já fazem lá. É uma área repleta de agremiações culturais, que se envolvem em atividades sociais. Embora a visão delas possa não ser o lucro, em determinado momento acabam gerando renda e buscando sua sustentabilidade. Para mim, como professor e aprendiz de pesquisador, é muito interessante observar como se desenvolvem essas organizações. Buscando uma aproximação com essa comunidade e se valendo da rede social já construída, por meio do projeto Negócio a Negócio podemos, eventualmente, atender a alguns desses empreendimentos culturais.
Verificamos uma quantidade muito grande de empreendimentos informais, especialmente no território do Recife Norte. Com algumas peculiaridades, com adaptações das empresas à realidade do mercado local dessas comunidades, principalmente nas áreas de morro. Por exemplo, existem mercearias que vendem os seus produtos fracionados: você pode comprar 50 centavos de macarrão, um real de galinha, e fazer sua refeição em caso com apenas R$2,00. É uma adaptação dos empreendimentos à realidade local Como as pessoas não têm recursos para fazer grandes compras, o dinheiro do dia a dia passa a ser gasto dessa forma. A intenção não é mudar essa característica, mas sim fortalecer esses pequenos empreendimentos. Mostrar a importância de uma boa gestão. Melhorar a administração financeira, fazendo um controle de caixa, por exemplo, registrando os gasots e receitas. Queremos também estimular a exposição adequada dos produtos nas prateleiras, à questão da higiene e do armazenamento do estoque, para evitar o desperdícios e situações de insegurança alimentar.
São empresas que normalmente não chegariam até o Sebrae. A economia dos morros é interessante, pois começa a aparelhar suas próprias soluções, para que as pessoas não tenham de se deslocar para adquirir produtos e serviços. Cria-se uma verdadeira economia local, com salões de beleza, pet shops, padarias e mercearias Com o Negócio a Negócio, buscamos atender não apenas as empresas formais, como também estimulamos essas que chamamos de potenciais empreendedores individuais para que possam se formalizar e também serem atendidas pelo nosso projeto. Já no centro da cidade, o perfil é diferente, existem mais empresas já formalizadas, muitas vezes com mais de quatro funcionários.
Portal Nectar – Como tem sido a receptividade dos empresários nessas comunidades?
Professor Marcos Oliveira – Em um primeiro momento há uma certa resistência. Essas pessoas normalmente já recebem diversas visitas de pessoas oferecendo cartões de crédito e novas formas de financiamento, portanto criam uma desconfiança natural a quem as abordacom uma farda e uma prancheta na mão. Mas quando descobrem que a iniciativa é do Sebrae, já há uma aceitação melhor, porque as pessoas já conhecem, já ouviram falar, seja por amigos, seja pela televisão. A expectativa é bastante positiva. Começamos as primeiras visitas no último dia 6 de agosto, fazendo os primeiros cadastros e traçando diagnósticos.
Portal Nectar – De que forma são trabalhados esses dados captados junto a cada empreendimento?
Professor Marcos Oliveira – Com a intenção de otimizar o registro das informações coletadas pelos Agentes de Orientação Empresarial, o NECTAR encomendou à AGILWARE, incubada da própria instituição cuja atuação é voltada para Tecnologias da Informação, um sistema de gerenciamento que agilizasse o trabalho do nosso pessoal em campo. Os dados são cadastrados em um banco de dados, tendo por diferencial o modo dinâmico com que podemos relacioná-los. Por exemplo, podemos restringir uma busca entre os empreendimentos de cada comunidade e ir além, pegando, por exemplo, só os donos de padarias naquela região, para efeito de comparação. E assim vamos formando um retrato falado daquela área, criando uma ferramenta valiosa de suporte também para formulação de ações futuras, tendo em vista que conheceremos melhor o perfil econômico de cada área.
Portal Nectar – Para encerrar a entrevistar, quais são os seus planos futuros e como o senhor vê a sua relação com o NECTAR?
Professor Marcos Oliveira – A curto prazo, pretendo terminar meu mestrado e iniciar um doutorado. Sou sócio da 3E Consultoria, que desenvolve trabalhos de assessoria e capacitação para empresas nascentes de base tecnológica nas áreas de pesquisa de marketing, estudo de mercado, plaejamento e gestão.. Pretendo continuar o meu trabalho em empreendedorismo, voltado a esse mesmo público, fazendo algo que possa ser útil e proveitoso para essa parcela significativa da população. Sinto-me satisfeito em assessorar esses novos empresários para que eles possam transformar seus sonhos em realidade, tornando seus negócios viáveis, não só tecnicamente, mas também mercadologicamente.
A minha relação com o NECTAR é muito profícua. Temos uma parceria amistosa baseada na numa relação de ensino e aprendizagem. O fato de o NECTAR estar próximo à universidade e ser formado por Professores possibilita esse tipo de relação, difícil de se encontrar na maioria das empresas. Acredito que temos muito a construir juntos ainda.
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