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Entrevista

Professor Alexandre Maciel
article thumbnailDiretor da Vocal Lab, o professor Alexandre Maciel fala sobre as possibilidades e os desafios envolvidos no processamento de voz, tecnologia na qual é especializado. A trajetória da empresa, incubada do NECTAR, e seus projetos, como o Framework FIVE e o Avatar Vocálico, também têm lugar nessa entrevista. Dividido entre o meio acadêmico e o...
Estudos de caso do programa Primeiros Passos: Abraão Figueiredo PDF Imprimir E-mail

Nem sempre a principal motivação do empreendedor é a vontade de ser o próprio chefe, atrelada à busca por realização financeira. Muitas vezes, uma pequena empresa é criada para que o dono possa abraçar sua vocação e trabalhar com o que sente prazer. Abrir um negócio torna-se o caminho natural para um autônomo bem sucedido, cuja qualidade de seus serviços é reconhecida e recomendada por seus clientes. Este é o caso de Abraão Figueiredo, proprietário de uma pequena empresa de ambientação infantil que leva o seu nome. Um artista que nota no dia-a-dia a necessidade de atuar também como o gestor de seu talento.

Desde a infância, Abraão sempre gostou de criar. Chegou a cursar três anos da Escola de Belas Artes mas só percebeu que poderia ganhar a vida exercendo seu dom quando surgiu a oportunidade de manifestá-lo em um emprego meramente burocrático. Ele trabalhava como auxiliar administrativo do departamento de pessoal de um tradicional colégio recifense. Como gostava de desenhar, acabava ficando responsável pela confecção dos convites e da decoração das festas infantis realizadas pela instituição. Seu trabalho agradou  a alunos e professores, então começaram a aparecer pedidos para que ele também atuasse nesse campo durante o seu tempo livre.

De repente, o que era brincadeira, tinha virado coisa séria. “Já estava ganhando mais dinheiro com as festas infantis do que com o meu salário no colégio”, recorda Abraão, que assim foi ganhando espaço no mercado. Seu trabalho era elogiado e sua fama chegou até os donos das principais lojas de festas infantis da cidade, para as quais Abraão passou a fornecer produtos, feitos em um atelier montado em sua casa, no bairro do Ibura, onde mora e trabalha até hoje. Com o tempo, passou a vender também para outras cidades nordestinas, como Natal, João Pessoa e Maceió.

Foi na capital alagoana que se deu a última investida de Abraão fora da temática infantil. Convidado por um amigo que comprou uma distribuidora, desenvolveu material de merchandising para impulsionar a venda de algumas marcas em estabelecimentos comerciais. Decorava supermercados com motivos natalinos, carnavalescos e etc., um emprego que lhe mantinha ocupado o ano inteiro. Quando a distribuidora fechou, uma amiga pediu que ele criasse um quarto de criança para uma cliente. O resultado foi tão bom, que Abraão nunca mais deixou esse ramo.

Mais uma vez a qualidade de seu trabalho chamou a atenção e lhe foi abrindo portas. Desenvolveu quartos de crianças para figuras importantes da sociedade do estado e foi até personagem de uma matéria na TV local destacando seu trabalho. Foi aí que, como diz a letra do frevo famoso, a saudade lhe trouxe pelo braço. “Gosto da cidade, da cultura, do clima, minha família está aqui. Já fui sondado para trabalhar em São Paulo, mas não quero sair”, afirma Abraão, justificando o retorno ao Recife, onde seguiu sua trajetória.

Ao mesmo tempo em que fornecia produtos para lojas em três estados, começou a mexer também com ambientes maiores, como um salão de cabeleireiro infantil, unidades pediátricas de grandes hospitais e clínicas infantis de planos de saúde. Foi para lidar com essas entidades que Abraão precisou de um CNPJ, provocando o surgimento da empresa Abraão Figueiredo Ambientação Infantil. Concorrido no mercado, fez um acordo com a maior loja de decoração para quartos de criança da cidade, passando a fornecer apenas para os estabelecimentos da franquia, embora seguisse com clientes próprios, os quais costumava atender em domicílio. Para suprir a demanda, montou um atelier próprio.

Atendendo a um convite de seu irmão, que resolveu investir numa loja de produtos infantis, Abraão fez a ambientação do estabelecimento e passou a fornecer acessórios para ele. Sua marca, solidificada, atraía clientela para a loja, que ainda assim acabou não dando certo. Seu irmão só tinha experiência como vendedor, nunca havia sido administrador; via o mercado como promissor, mas não o conhecia direito. O lucro não veio de imediato e a loja teve de ser passada adiante. Abraão teve então de recomeçar e até hoje ainda está lutando para se reerguer.

O empresário voltou a atender a clientes em domicílio, mas tantos deslocamentos, em uma cidade de trânsito complicado como o Recife, derrubaram a sua produtividade. “Às vezes você viaja uma grande distância e o cliente acaba não fechando negócio”, reclama. Clientes nunca lhe faltaram, porque seu nome continua sendo referência, mas faltava organização. “Eu sempre tive uma visão dividida. Sou o artista, o gestor, cuido do comercial, faço tudo. Acabava não fazendo nada direito”, desabafa. Abraão, que nunca se sentiu à vontade para trabalhar com a parte burocrática no colégio em que despontou como artista, se via obrigado a lidar com isso outra vez, agora como uma questão de sobrevivência do seu negócio.

Influenciado por indicações de conhecidos e por propagandas no programa de televisão Pequenas Empresas, Grandes Negócios, procurou o Sebrae para aprender a administrar o seu empreendimento. Foi atendido pelo Programa Primeiros Passos e, após um curso de dois meses, com uma aula semanal, sua empresa foi alvo de uma consultoria, realizada com o apoio do NECTAR. “Aprendi que precisamos nos organizar para crescer e para isso precisamos buscar o conhecimento, mas também aprender a colocá-lo em prática”, conta Abraão.

Verificado o grande potencial da empresa, as principais orientações passadas pelo analista empresarial foram a de controlar o fluxo de caixa, organizar o estoque e elaborar as fichas técnicas dos seus produtos, ou seja, contabilizar a quantidade e o custo do material empregado em cada peça, para ter uma noção melhor da margem de lucro que se pode ter com elas. Também lhe foi recomendado que buscasse pessoas capacitadas para trabalharem na parte administrativa ou mesmo que arranjasse um sócio. Abraão reconhece a necessidade da contratação de um profissional da área, mas tem sentido dificuldade em encontrar alguém que seja ao mesmo tempo eficiente e confiável.

Como a empresa tem a marca já consolidada, o grande objetivo de Abraão é otimizar a divulgação do seu trabalho. Está procurando um espaço para montar um showroom, onde possa receber os clientes, sem que tenha de visitá-los para ouvir os seus pedidos.  Também está nos planos a confecção de um catálogo e um portfólio com amostras, bem como de alguém que faça o trabalho comercial, levando esse material para a apreciação de clientes em potencial. No mundo virtual, esse trabalho já está mais adiantado, pois um site já está sendo construído e seus produtos já se encontram expostos em redes sociais como o Facebook e o Orkut.

Abraão desenha e produz itens como kits de higiene, álbuns de fotos, enfeites para porta de maternidade, papel de parede, quadros e decorações para móveis e berços, tendo um público-alvo de classe média alta. Orgulha-se do material que desenvolveu com exclusividade para fazer seus produtos, fruto de uma técnica de papietagem, misturando papel, cola e massa corrida. Seu trabalho desperta tanto interesse em seus funcionários, que um deles chegou lá para atuar como auxiliar de pedreiro e acabou se tornando mais um artista.

Hoje, a empresa Abraão Figueiredo vende produtos para um atelier que ele considera ter muito potencial, mas também pretende fornecer para estabelecimentos maiores em São Paulo. Aliás, cruzar longas distâncias não é novidade para o trabalho do artesão, que costuma receber encomendas de pessoas que moram em países como Estados Unidos, França, Portugal, Espanha e até Panamá. Atualizado com o mercado, Abraão acompanha as revistas de segmento e visita lojas, para checar as tendências e os preços que estão sendo cobrados.

Um plano a longo prazo é o de criação de uma marca paralela, que produza itens de decoração em série, buscando enfrentar a concorrência de produtos que ele considera de baixa qualidade, vendidos em grandes magazines. Mas Abraão nem pensa em abrir mão do seu diferencial, que é o trabalho personalizado, realizado a mão. E apesar de receber pedidos para fazer também a decoração de ambientes adultos e se mostrar interessado na possibilidade, o empresário parece já satisfeito com o alcance atual do seu ofício.

“O trabalho manual passa a energia, o brilho do artista, que deixa um pouco de si em cada peça. Quando entregamos os acessórios para os quartos de criança, notamos a emoção de pais e mães. Eles nem costumam se preocupar com o preço, porque é a realização de um sonho para eles.”, acredita. E é assim, realizando os sonhos dos outros, que Abraão vai mantendo vivo o seu, sob a forma de pequena empresa.



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